Transgredir os limites de quais histórias e temas podem ser considerados dignos de literatura é um dos muitos êxitos da obra de Annie Ernaux, que há mais de quatro décadas se dedica a escrever a própria vida, sempre atenta à dimensão social e política do que é individual.
Nesta meditação investigativa escrita na forma de diário íntimo — e que compõe a coleção Raconter la vie [Narrar a vida] da editora francesa Seuil —, Ernaux volta sua atenção para o fenômeno dos grandes supermercados, espaço onipresente na vida moderna e domínio por excelência da mulher na sociedade patriarcal. Registrando suas visitas a um hipermercado dentro de um shopping perto de Paris ao longo dos meses, ela exercita o que considera um “modo impressionista de apreender coisas e pessoas”, isto é, “um livre registro das observac¸o~es, sensac¸o~es, para tentar capturar alguma coisa da vida que se desenrola ali”.
Sem, portanto, mobilizar leituras teóricas, apenas por meio de seu incansável poder de observação, Ern