É possível seguir “alheio a tudo o que fizeram com você”? Convertendo em pergunta um dos primeiros versos de
Vagoneta
, ficamos próximos do núcleo das tensões entre as quais a poesia de Luiz Mauricio de Azevedo se coloca e nos coloca. A história pesa sobre a voz que fala nesses poemas, mas ela nunca é o “passado”; é como um tempo que não pode ser consertado, como impossibilidade e ódio vivos, que ela pesa.
Curiosamente, costurando as imagens de dor (a impotência diante “do que poderia ter sido”, a mãe falecida, os sonhos esmagados, “não [ter] ninguém em mim”), o humor é uma das marcas de
Vagoneta
, mas para cada sorriso há um travo profundo. Porque esse humor talvez seja da mesma natureza daquele “só rindo mesmo” que soltamos diante do absurdo naturalizado nas notícias, da injustiça como regra no cotidiano, das adversidades que se sucedem. E não há conformismo ou cinismo aí,