Entre os discursos de Luciano de Samósata (século II d.C.), Das Narrativas Verdadeiras sobressai quer na invenção de múltiplos monstros, quer na proliferação de admiráveis cenários. Narrador-navegador, Luciano conta nos dois livros de prosa de Narrativas os périplos a bordo do seu veleiro não só pelos confins da Terra, como também pelo que a excede, notabilizadas pelas expedições que ora sobem ao domínio dos céus (Lua, Cidade-lamparina), ora descem ao reino dos mortos (Ilha dos Bem-aventurados, Ilha dos Ímpios). O propósito do discurso revela-se no proêmio: uma narração que lida com o que “de nenhum modo é e, por princípio, nem mesmo pode vir a ser” (I, 4). Instala-se, com ela, um dos paradoxos que permeia todo o texto: apesar de abolir de antemão o ser, os episódios se sucedem uns aos outros, forjando seres e devires. É a instância instável do falso que ganha corpo, animando prodigiosamente as cenas. Esvaziadas do pesadume do ser, as palavras nem recebem demarcações nítidas, nem busca