Começo de madrugada e Abel desce as ladeiras de Santa Teresa, saído da casa de Romy, seu namorado, após um desentendimento. Pouco depois dos últimos fogos estourarem, trazendo com seu alarido o ano novo, Abel é atropelado e morre. Romy baixa aos infernos e entoa, então, seus novos hinos ateus, para contestar a ordem dos deuses e reaver Abel. O resgate, porém, tem seu custo. Abel pode flanar pelas ruas históricas do centro da cidade e olhar satisfeito para o mar à distância, mas as linhas invisíveis que sustentam os céus e desenham as fronteiras do Rio começam a ruir e uma nova partida, ainda mais definitiva do que a primeira, pode despontar no horizonte. De certo modo, a história deles acaba bem aí, justamente onde começou. Mas os novos hinos ateus se escrevem do fim e escrever do fim é um gesto duplo. Por um lado, é escrever de tudo aquilo que acontece quando tudo acaba e a vida de Abel escapa. Por outro, é escrever como se o depois precedesse o antes, porque a invectiva de Romy