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SAMBA-ENREDO

SAMBA-ENREDO
Editora: REC - RECORD
edição
isbn13
Número de páginas
Peso
Autor
Editora
R$ 64,90
A Capital Federal, como se sabe, foi construída sob o signo de um racionalismo que semeou, à margem de seu projeto urbanístico, cidades-satélites que são também satélites da racionalidade, com suas seitas milenaristas. Um carnaval em Brasília, portanto, representa uma eclosão de forças telúricas que derretem qualquer monumento à razão abstrata. E o ritual em que Íris Quelemém profetiza que garante ter sido sequestrada por extraterrestres lê o destino do presidente raptado, entre carnavalescos e autoridades do Planalto, corresponde a um dos momentos em que Samba-enredo realiza seu próprio projeto, que consiste em mesclar espírito crítico com autoironia. Acredito que o estilo é a máquina. O meu é brasileiro desbocado, mas capenga e aleijado, afirma o narrador deste livro. Almino e seu computador-autor preservam, no limite do possível, um senso machadiano de equilíbrio e mesure com meditações sobre vício e virtude, sobre a derrisória igualdade racial dos desfi les de escola de samba , porém anexando de modo gaiato os registros populares, como na mascarada em que um repentista inocula na plateia a suspeita de que o presidente fora vítima de crapulosa vingança amorosa. E, como em Machado de Assis cujos narradores inconfiáveis parecem de fato atualizados nos arquivos instáveis de Samba-enredo, Almino reduz as questões de Estado a uma banalidade que, mesmo criminosa, explica um esquecimento, uma queima de arquivos, que reacende o pavio da história.
A Capital Federal, como se sabe, foi construída sob o signo de um racionalismo que semeou, à margem de seu projeto urbanístico, cidades-satélites que são também satélites da racionalidade, com suas seitas milenaristas. Um carnaval em Brasília, portanto, representa uma eclosão de forças telúricas que derretem qualquer monumento à razão abstrata. E o ritual em que Íris Quelemém profetiza que garante ter sido sequestrada por extraterrestres lê o destino do presidente raptado, entre carnavalescos e autoridades do Planalto, corresponde a um dos momentos em que Samba-enredo realiza seu próprio projeto, que consiste em mesclar espírito crítico com autoironia. Acredito que o estilo é a máquina. O meu é brasileiro desbocado, mas capenga e aleijado, afirma o narrador deste livro. Almino e seu computador-autor preservam, no limite do possível, um senso machadiano de equilíbrio e mesure com meditações sobre vício e virtude, sobre a derrisória igualdade racial dos desfi les de escola de samba , porém anexando de modo gaiato os registros populares, como na mascarada em que um repentista inocula na plateia a suspeita de que o presidente fora vítima de crapulosa vingança amorosa. E, como em Machado de Assis cujos narradores inconfiáveis parecem de fato atualizados nos arquivos instáveis de Samba-enredo, Almino reduz as questões de Estado a uma banalidade que, mesmo criminosa, explica um esquecimento, uma queima de arquivos, que reacende o pavio da história.